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A água dos Pirineus contra as pontes do Ebro

Em julho de 1938, a República cruzou o rio de noite em barcas e passarelas, e Franco respondeu abrindo as comportas de Tremp e Camarasa.

Soldados republicanos atravessam o rio Ebro em barcas, julho de 1938

A travessia do Ebro, julho de 1938

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Cinco horas em 24. Era a chance de um barco republicano atravessar o Ebro sem ser visto na noite de 24 para 25 de julho de 1938: a janela de escuro entre a meia-noite e o clarear. Com o dia, a aviação de Franco enxergava o rio inteiro.

Às 0h15, os primeiros barcos entraram na água.

Eram barcas de madeira trazidas da costa catalã e botes de borracha para oito ou dez homens. Os remadores tinham treinado semanas em trechos calmos de rio, longe da frente, sempre de noite e sem falar.

Na outra margem, as sentinelas nacionalistas (o lado de Franco, que se chamava assim) vigiavam uma frente que parecia segura. O rio, largo e fundo naquele trecho, fazia o papel de muralha.

Atrás dos barcos vinham os pontoneiros (os soldados de engenharia que montam pontes flutuantes). Em poucas horas, passarelas de tábuas sobre boias de cortiça ligavam as duas margens.

Algumas foram montadas um palmo abaixo da superfície. O piloto que passasse de manhã veria só água correndo, e os soldados atravessavam com o rio pelos tornozelos.

De madrugada, milhares de homens já marchavam para o interior, pelas colinas de vinhedos e oliveiras da Terra Alta.

Franco recebeu a notícia no quartel-general e não mandou primeiro um exército. Mandou abrir comportas.

Rio acima, nos Pirineus, as represas de Tremp e de Camarasa estavam em mãos nacionalistas desde a primavera. Os engenheiros soltaram a água acumulada, e a onda desceu pelos rios Noguera Pallaresa e Segre até o Ebro.

Em dois dias, o nível subiu e a correnteza engrossou. A água arrastou pontes de barcas, passarelas e cabos. Os homens que já estavam do outro lado ficaram com o rio cheio às costas e a munição chegando aos poucos.

A seguir, a ficha da batalha mais longa da Guerra Civil Espanhola, os comandantes dos dois lados e o desenho do plano que mandou um exército inteiro atravessar um rio no escuro.

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I  A batalha de hoje

Quatro meses de margem a margem

A resposta de ontem

Para onde marchou o 4º Exército soviético ao recuar?

Para a Prússia Oriental, território alemão. Encurralados entre os poloneses e a fronteira no fim de agosto de 1920, dezenas de milhares de homens do 4º Exército e do corpo de cavalaria de Gaya Gai cruzaram a linha e foram desarmados e internados pelos alemães, como registra Norman Davies em White Eagle, Red Star (1972).

A Batalha do Ebro foi travada entre 25 de julho e 16 de novembro de 1938, na grande curva do rio Ebro entre Mequinenza e Amposta, no sul da Catalunha. Foi a maior e mais longa batalha da Guerra Civil Espanhola, e opôs o Exército Popular da República, sob o governo de Juan Negrín, às tropas nacionalistas do general Francisco Franco.

No Ebro, a República ganhou a travessia em uma noite e perdeu a batalha em quatro meses.

A ficha do confronto:

Data:25 jul. a 16 nov. 1938
Local:rio Ebro, Catalunha
Lado republicano:Juan Modesto
Lado nacionalista:Francisco Franco
Arma do dia:comportas das represas
Desfecho:vitória nacionalista

A guerra tinha começado em julho de 1936, com o golpe militar contra o governo da Segunda República. Dois anos depois, Franco controlava a maior parte do país.

Em 15 de abril de 1938, as tropas nacionalistas chegaram ao Mediterrâneo em Vinaròs, na costa de Castellón. A zona republicana ficou partida em duas: a Catalunha isolada ao norte; Madri, Valência e o centro ao sul.

Em seguida, Franco virou o grosso do exército contra Valência. O avanço era lento, mas não parava.

O plano republicano era cruzar o Ebro pela retaguarda das tropas que atacavam Valência, obrigar Franco a desviá-las e, se tudo corresse bem, reabrir a ligação entre as duas metades da República.

Nos primeiros dias, deu certo. As divisões republicanas avançaram mais de 20 quilômetros e chegaram aos arredores de Gandesa, o nó de estradas da Terra Alta.

Gandesa não caiu. Os defensores nacionalistas seguraram a cidade, os reforços chegaram pela estrada e, no começo de agosto, a ofensiva republicana estava parada.

Começou ali a parte mais dura. Franco não tentou cercar o bolsão republicano: escolheu esmagá-lo de frente, colina por colina, com artilharia e aviação.

Foram sete contraofensivas nacionalistas entre agosto e novembro, nas serras de Pàndols e de Cavalls. Em terreno de pedra, sem como cavar trincheira, os soldados empilhavam rochas para se proteger.

Em 30 de outubro, a última ofensiva nacionalista rompeu a serra de Cavalls. Os republicanos recuaram em ordem até o rio.

Em 16 de novembro, as últimas unidades republicanas recruzaram o Ebro em Flix, de volta à margem de onde tinham partido em julho.

Corbera d'Ebre, uma das vilas no centro da luta, nunca foi reconstruída no mesmo lugar. As ruínas do povoado velho continuam de pé, como a guerra as deixou.

 
 

II  Quem estava em campo

Os operários contra o general da África

No Ebro, um exército comandado por ex-operários atacou um general que tinha feito a carreira inteira na guerra do Marrocos.

O comandante de 31 anos

Juan Modesto Guilloto comandava o Exército do Ebro, criado em maio de 1938 para a operação. Tinha 31 anos, trabalhara numa serraria em El Puerto de Santa María e aprendeu a guerra nas milícias comunistas de 1936.

Sob ele, três corpos de exército. O 5º, de Enrique Líster, ex-canteiro (pedreiro que talha pedra) da Galícia. O 15º, de Manuel Tagüeña, estudante de física com 25 anos. O 12º, de Etelvino Vega.

O homem do mapa

Vicente Rojo Lluch, chefe do Estado-Maior Central (o comando que planejava as operações de todo o exército), desenhou a travessia. Era militar de carreira, professor da academia de Toledo antes da guerra, católico e fiel à República.

Rojo já tinha planejado a defesa de Madri em 1936 e a ofensiva de Teruel em 1937. No Ebro, apostou na surpresa para compensar a falta de aviões e de artilharia.

O governo que precisava de tempo

Juan Negrín, chefe do governo republicano, queria resistir até a guerra estourar na Europa. Um conflito entre a Alemanha e as democracias, calculava, traria França e Grã-Bretanha para o lado da República.

Em 30 de setembro de 1938, o Acordo de Munique entregou a Hitler parte da Tchecoslováquia sem um tiro. A guerra europeia ficou adiada, e a aposta de Negrín perdeu a base em plena batalha.

Do outro lado

Franco acompanhou a resposta de perto, de um posto de observação nas colinas. O general Juan Yagüe, cujo Corpo de Exército Marroquino guardava a linha do rio, foi pego de surpresa na noite de 25 de julho.

Do céu, a Legião Condor (a força aérea enviada por Hitler) e a Aviação Legionária de Mussolini bombardeavam as pontes todos os dias.

Os voluntários

As Brigadas Internacionais (voluntários estrangeiros que lutavam pela República) cruzaram o Ebro com a 35ª Divisão. Em 21 de setembro, Negrín anunciou na Liga das Nações a retirada de todos eles.

Na despedida em Barcelona, Dolores Ibárruri, a dirigente comunista apelidada La Pasionaria (a Apaixonada), disse a eles: “Podéis marchar orgullosos. Sois la historia. Sois la leyenda” (Podem partir com orgulho. Vocês são a história. Vocês são a lenda), no discurso de despedida das Brigadas Internacionais, em 1938.

O que veio depois

Modesto e Líster deixaram a Espanha em 1939 e viveram exilados na União Soviética. Rojo foi para a Argentina e a Bolívia, voltou em 1957 e foi julgado e condenado por um tribunal militar franquista.

 

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III  O plano

Cortiça contra comporta

O plano republicano: cruzar o Ebro de noite, em vários pontos ao mesmo tempo, e chegar a Gandesa nos primeiros dias, com a surpresa.

O plano nacionalista: segurar Gandesa, cortar as pontes atrás dos republicanos e moer o bolsão até ele recuar.

O golpe de Franco: usar a água dos Pirineus como arma e afogar a linha de abastecimento.

A travessia dependia de três peças:

1. Barcos para a primeira onda, com remadores treinados para cruzar sem barulho e voltar para buscar mais homens.

2. Passarelas de infantaria, feitas de tábuas sobre flutuadores, que se montavam em minutos e se escondiam rente à água.

3. Pontes de barcas para caminhões e artilharia, mais pesadas e lentas de armar, que só começavam com a outra margem garantida.

No sul, em Amposta, a 14ª Brigada Internacional fez um ataque de diversão (um ataque falso, para atrair o inimigo para longe do golpe principal). Foi rechaçada com perdas pesadas, mas prendeu tropas nacionalistas longe da curva do rio.

Na curva maior, entre Fayón e Miravet, os barcos passaram quase sem resistência. Ao amanhecer, os pontoneiros já tinham passarelas firmes e começavam as pontes pesadas.

A resposta nacionalista veio pela aviação e pela engenharia. Os bombardeiros atacavam as pontes de dia; os pontoneiros as remendavam à noite.

A água de Tremp e Camarasa somou ao bombardeio uma força que nenhum remendo segurava. Com o rio alto e rápido, as pontes de barcas se soltavam das amarras e desciam com a correnteza.

Os republicanos responderam com o que tinham: mais passarelas, cabos mais grossos, pontes desmontadas de dia e remontadas ao anoitecer. A munição continuou passando, mas a conta-gotas, nunca no volume que uma ofensiva exige.

Sem caminhões e sem artilharia pesada na margem certa, o ataque a Gandesa parou. Rojo tinha calculado a surpresa; não tinha como calcular um rio que subia sob o comando do inimigo.

O que veio depois foi a guerra de desgaste que Franco quis. A República gastou na Terra Alta o melhor do exército que lhe restava.

Barcelona caiu no inverno seguinte, quase sem combate, e a guerra terminou em 1º de abril de 1939.

Em Flix, o último grupo republicano atravessou de madrugada, em 16 de novembro. Atrás dele ficou a ponte de ferro.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

O que os sapadores republicanos fizeram com a ponte de ferro de Flix depois que o último homem passou?

 
 
Quiz da edição

Que represas Franco mandou abrir pra soltar a água contra a travessia republicana no Ebro?

AMediano e Yesa
BTremp e Camarasa
CRibarroja e Mequinenza
DEl Grado e Barasona

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